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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre a professora Amanda Gurgel

Quem tem internet provavelmente viu ou ficou sabendo do vídeo da professora Amanda Gurgel. Esse vídeo foi gravado no dia 10 de maio desse ano em uma audiência pública na câmara dos deputados do Rio Grande do Norte e foi parar no youtube.



A reação foi viral, muitas pessoas, inclusive eu, postaram no facebook e outras redes sociais, o número de acessos cresceu de forma vertiginosa e de repente a professora se viu famosa, fez várias entrevistas em diversos canais, foi até no Faustão.

O que mais me impressionou sobre a fala de Amanda não é que ela exponha novidades, pelo contrário, ela discorre sobre o que todo mundo já sabe. A educação no Brasil não é considerada como prioridade, os professores são mal pagos, trabalham em três turnos pra conseguir se sustentar e por aí vai. Ela ressalta que muito se diz sobre programas e reformas de longo prazo, mas algumas necessidades, como a necessidade dos professores de se alimentar e das crianças de ter uma educação de qualidade, são imediatas, dessa forma algumas medidas imediatas devem ser tomadas.

Durante a entrevista da professora no Programa do Faustão, que foi ao ar no dia 22 de maio desse ano, foi ressaltado que a educação é base de uma sociedade digna, que todo mundo, “quando olha no retrovisor da vida”, pra usar as palavras do apresentador, encontra um professor que fez diferença, que foi marcante, que ajudou no crescimento pessoal. É legal que a gente adquira a consciência de que esses profissionais, tão importantes para nossa formação, se desdobram em dois pra conseguir permanecer na profissão, principalmente os de escolas públicas, que além de lidar com salários baixos precisam muitas vezes contornar as condições estruturais precárias.

A sociedade precisa se organizar e exigir que os políticos no poder, eleitos pelo povo, se voltem para educação, que é a base de uma sociedade igualitária. A educação não é responsabilidade apenas daqueles envolvidos diretamente, pais, alunos e professores, mas de todos. 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Teatro Engajado

Lendo o texto de um amigo sobre Teatro Engajado comecei a pensar sobre as questões levantadas por ele. Achei muito interessante a discussão sobre a questão da arte pela arte ou da arte que leva a pensar, por isso estou reproduzindo uma versão adaptada do texto dele:

Uma grande confusão é causada pelos termos no que diz respeito a um teatro que trabalhe com o homem inserido em questões sócio-políticas, mas é costume reduzí-los ao chamado Teatro Político. Teatro de Propaganda, Teatro Revolucionário, Teatro Engajado. Sociologicamente, toda discussão é política, assim, todo teatro se definiria como político, porque discute alguma coisa. Mas, ganhou status separado, um tipo de teatro que busca causar mudanças de importância sócio-política.
Nascido de uma discussão que abrangeu inicialmente todas as áreas da arte, com o início da Arte Moderna, que colocaria em pontos opostos os artistas que defenderiam a “arte pela arte” e a arte com sentido, o Teatro Político foi amplamente discutido em todo o século XX. Aqueles que defenderiam que a arte é algo autônomo, sem necessidade de pensar algo que não seja ela mesma e a arte que impõe discussão sobre a vida. O fato de artistas esteticistas se colocarem contra o Engajamento já significa uma conduta política. Pensando assim todos os artistas sérios são engajados. Mas não se trata apenas de saber se o artista tem um ponto de vista político formado; trata-se de saber se o seu ponto de vista político faz parte integrante da sua obra.
Há muitas tendências diferentes. O teatro que vai discutir a questão do negro, da mulher, do homossexual, etc, partindo de pressupostos estéticos bem diferentes. Mas, a característica anti-lúdica será preponderante.
Mas como podemos então diferenciar esse Teatro Engajado de sua forma essencial chamada de Teatro Político? Este teatro não busca mudar a sociedade como o Teatro de Propaganda, mas sim o homem. Se ele não tenta “catequizar” com uma resposta pronta para o mundo, ele só tenta mudar ou conscientizar o homem. E, ainda, por considerar que o Teatro Engajado muda a realidade em prol dessa conscientização o Teatro Engajado nasce da união de política e teatro.
Por trás da discussão sobre Engajamento está a eterna discussão sobre a finalidade da arte. A arte deve ensinar ou proporcionar prazer? É possível que as duas coisas aconteçam simultaneamente? Esse debate está repleto de paradoxos, e de paradoxos inevitáveis, uma vez que a ação de aprender pode ser um prazer, e que, por outro lado, o fato de estar experimentando uma sensação de prazer não nos impede de estar aprendendo alguma coisa.
Algumas obras desse tipo de teatro são maniqueístas, indutivas demais. Mas é essa a preocupação de um teatro engajado. Se mostrar um ser humano, não conseguirá efeito sobre a platéia que poderá se identificar com o mau e o achar injustiçado. Já mostrando o homem mau de forma radical, conseguiria causar a indignação na platéia.
No fim das contas: Teatro Engajado é aquele que, simplesmente, quer “levar as pessoas a se engajarem”.
(Texto de: Thiago Herzog; adaptado por: Luciana Gomes)

A arte pode ser usada pra se fazer pensar além da beleza das obras, essa discussão, apesar de estar focada no teatro, é válida pra todos as representações artísticas. A arte engajada nos leva a pensar e, através dessa reflexão, modificar a nós mesmos e mais amplamente a sociedade.

Aí achei que é estranho que a gente precise de lembretes pra pensar a nossa própria sociedade. Não que o teatro engajado seja dispensável, longe disso, justamente por conta dessa forma de agir meio "alienada". Nós precisamos mesmo de alguma obra de arte para raciocinarmos a questão do negro? Do preconceito em geral? Da inclusão de minorias, como os deficientes? A gente não vê no dia a dia vários acontecimentos que poderiam ter um desfecho diferente se a gente interferisse? Porque em última instância o objetivo do teatro engajado é esse, fazer com que as pessoas se engajem, que ajam.

E ainda, essa preocupação não é de mudar o coletivo, e sim transformar o individual, pra que este único indivíduo alterado consiga através de suas atitudes transformar a sociedade. Pra gente ver como nossas atitudes fazem diferença sim, mesmo dentro de um grupo muito grande de pessoas.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

"A escola deve ser espaço mais sagrado que qualquer templo"

Um assunto que continuará atual por bastante tempo, infelizmente, será o massacre à escola de Realengo, no Rio de Janeiro. A violência contra crianças tem nuances mais sutis, que às vezes passam despercebidas na sociedade. Penso que o texto abaixo, da educadora Maria Frô, é bem pertinente.
"Acordo muito cedo, levo minha filha pra escola, volto e por volta das 7 H retomo minha rotina. Sou educadora, aprendi a ser desde quando, no 1º ano da Universidade, entrei numa sala de aula de Educação de Adultos, depois em salas de 3º ano de Ensino Médio, e depois com crianças de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental e, paralelamente, formando professores em diferentes cursos de formação mas, especialmente, na formação para a educação em direitos humanos, na educação para a igualdade étnico racial.

Educar é a minha vida, acredito que podemos educar em todos os espaços sociais (no mundo off line e no mundo on line).

Hoje, pela manhã, em Realengo, Rio de Janeiro, Wellington Menezes Oliveira conseguiu entrar armado na escola municipal Tasso da Silveira (de Ensino Fundamental), e até o momento as notícias desencontradas das tevês e jornais informam que 11 crianças foram assassinadas com tiros na cabeça e abdômen.

O mundo inteiro se volta para o Brasil, para Realengo, para o Rio de Janeiro: Guardian, Le Figaro e La Nación, Al Jazeera, BBC, El País, La Reppublica e Wall Street Journal - ”A tragédia choca a sociedade brasileira, de orientaçao familiar e onde a violência contra crianças é rara”. Infelizmente, a violência contra as crianças e adolescentes não é rara no país. Existem diferentes formas de violência, adolescentes, meninos, negros são os mais vitimados. Uma pequena busca aqui no Blog mostrará alguns vídeos de policiais atirando em adolescente em Manaus, policiais espancando adolescente em Feira de Santana e tantas outras formas de se propagar a violência.

Professores exauridos, desestimulados cansam-se de denunciar a violência em várias escolas urbanas das periferias brasileiras: crianças e adolescentes expostos ao tráfico de drogas, alunos armados, roubos… Mas nada se compara ao que aconteceu nesta escola hoje. Uma escola de referência, pois tem uma política inclusiva, atende deficientes auditivos.

Na manhã de hoje a escola recebia ex-alunos para dar palestras em comemoração aos seus 40 anos. Segundo relatos de profissionais da escola de Realengo o ex- aluno, Wellington, aproveitou-se disso e se identificou como um dos palestrantes.

Não se tem ainda informações seguras sobre o que levou este jovem a matar 11 crianças de 12 a 14 anos (10 meninas e 1 menino) e ferir mais 29! Quanto a morte do atirador, a versão do sargento Alves, o primeiro a chegar na escola é de que o atirador foi baleado pelo sargento e após levar um tiro se matou.

Há uma imensa especulação na mídia televisiva e impressa sobre o perfil do atirador: desde que se tratava de um ‘extremista islâmico‘, de que era ‘filho adotivo’, ‘viciado em internet’, jovem de ‘poucos amigos’, ’portador do HIV’…

Esse é um momento perigoso, onde empresas jornalísticas em busca de audiência exploram como podem esta imensa tragédia: islamismo, adoção, internet e portadores de HIV tornam-se explicações fáceis para nossas mentes bestificadas diante do absurdo que é crianças serem mortas dentro da escola.

Ouço na Record News o absurdo do apresentador João dizer que ataques como este é ‘normal’ no Oriente Médio! Tevês dizem que o atirador deu mais de 100 tiros! Como seria possível dar mais de 100 tiros se o atirador portava dois revolveres de calibre 38? Como este jovem tinha tanta munição? Como conseguiu as armas? Como fomos capazes de dizer não ao desarmamento e sim ao comércio de armas?

Tento escrever este texto em busca de alguma organização mental, emocional. Sou mãe, educadora, não posso sequer imaginar a dor incomensurável desses pais que deixaram seus filhos na escola, porque é um espaço de saber, um espaço de formação, um espaço de cidadania, um direito das crianças e adolescentes frequentarem de modo seguro, um dever de governos proverem e uma obrigação constitucional dos pais enviarem seus filhos.

No meio de tantas especulações feitas pela imprensa, é preciso ressaltar o bom senso do prefeito Paes ao se pronunciar: não espalhou pânico, defendeu a escola como um espaço da comunidade.

A presidenta Dilma Rousseff fez um pronunciamento visivelmente emocionada em solidariedade às famílias e as crianças vitimadas.

A ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário sabiamente ressaltou que neste primeiro momento é preciso oferecer toda a solidariedade e apoio às crianças da escola e as famílias das vítimas e, ao mesmo tempo, lembrou à imprensa de sua responsabilidade, para que evitassem espetacularizar esta tragédia espalhando pânico entre as crianças. Rosário rememorou, por exemplo, como a imprensa explorou o caso da menina Isabela. Mesmo assim na Record News prosseguia insistindo no ‘argumento’ de que nos ‘demais países’ isso é ‘terrorismo’ e se não iremos tratar assim também! Como pode uma tevê propor esta abordagem sem qualquer investigação?

Como pode políticos oportunistas como o deputado Marcos Feliciano mais uma vez se aproveitar de uma tragédia sem precedentes no país pra espalhar seus dogmas equivocados, intolerantes, irresponsáveis e afirmar que tal tragédia é uma profecia divina pra castigar infiéis?

Gostaria imensamente que aprendêssemos como tragédias como estas. As escolas não devem virar prisões (algumas já têm este aspecto) elas devem ser espaços valorizados pelas comunidades, devem ser fortalecidas, queridas, abraçadas, nossas crianças efetivamente protegidas, tratadas com dignidade para que cresçam amando o conhecimento e diminuindo o grau de intolerância. Nossos profissionais da educação devem ser valorizados, porque é uma imensa responsabilidade e exige uma tremenda formação profissional formar futuros cidadãos.

Que esta tragédia não sirva para os oportunistas de sempre pregarem mais e mais intolerância. Que possamos aprender com Hannah Arendt a lição maior da autoridade: o mundo adulto é responsável pelas gerações futuras. Não fujamos de nossas obrigações. Isso significa que todo adulto deve ser responsável por qualquer criança. Isso significa, por exemplo, olharmos para além dos nossos umbigos, de nossas crias, de nossos alunos, isso exige de nós um compromisso maior e real com políticas públicas que sejam capazes de incluir, educar, prover de espaços culturais e de lazer, formar e amar todas as nossas crianças. Elas merecem um futuro melhor que balas na cabeça em seu espaço escolar."
Texto da educadora Maria Frô.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Essência da educação: ensinando para a vida!

Sabe aquelas pessoas especiais que aparecem no nosso caminho? Eu tenho que reconhecer que a vida foi muito bacana comigo! Entre tantas outras pessoas, as idas e vindas da vida fizeram com que eu conhecesse Vera, uma mulher guerreira, inteligentíssima e que dedicou sua vida ao magistério.

O texto abaixo foi escrito por ela e, confesso, quase me fez chorar. Demonstra o quanto ela se dedicou à sua profissão e aos seus alunos e ao mesmo tempo é esclarecedor em relação ao papel do professor na construção da cidadania. Pessoas como a Vera fazem a diferença e eu não tenho dúvidas que ela é um exemplo a ser seguido. Vale a pena a leitura.

“Diziam as velhas teorias que as crianças seriam folhas em branco, onde o professor deveria depositar conhecimentos. Confesso que, antes de me deparar com minha primeira turma, pensava que seria importante ensinar e ajudá-las a ter uma visão de mundo mais definido. Delicioso engano!
A primeira coisa que me aconteceu foi verificar que cada criança já trazia consigo uma bagagem de experiências próprias. Cada dia uma experiência infinitamente sem igual. Não se tratava apenas de transmitir conhecimentos, mas de vivenciar momentos gostosos de troca de experiências, de aprender brincando, de compartilhar sentimentos verdadeiros, enfim, de viver!
Após trinta e três anos de práticas pedagógicas, posso afirmar que o papel do professor não é o de salvador, mas sim, através de uma postura ética, o de tornar-se um instrumento que vai favorecer ou não a aprendizagem. Por isso, o objetivo maior da prática educativa e escolar é a construção da cidadania. Esta postura ética do professor é a mola mestra que vai nortear o sucesso da mesma.
Pude ao longo destes anos comprovar o que estou dizendo. Tive um aluno, filho de ex-presidiária e pai desconhecido, que era muito indisciplinado e agressivo. Já havia repetido o ano três vezes e ficava sentado no final da sala sem falar com ninguém. Não o conhecia, mas na semana do dia do trabalho fiz uma pesquisa sobre as profissões e soube que ele trabalhava à noite em uma padaria. Fiquei tão admirada por um menino de treze anos que trabalhava para se sustentar e ajudar em casa que comecei a admirá-lo e mostrar a turma que, apesar das dificuldades e com força de vontade, podemos mudar as coisas e a sociedade. A partir daí, seu comportamento mudou e ele se tornou um dos melhores alunos da Escola. Hoje é um homem de bem e formado em fisioterapia. Ainda continuamos a ter contato. Tive alunos que perdi para o tráfico, mas que, mesmo assim, se encontravam comigo e diziam que era errado o que estavam fazendo. Diziam-me que guardavam ainda nossas aulas no pensamento, mas que não podiam deixar o tráfico, pois seriam mortos.
Uma das coisas que mais me emocionou foi quando eu, desanimada com a profissão por me achar sem valor na atual situação do magistério, saí para arejar a cabeça no metrô de Acari, pois sempre trabalhei em comunidades carentes e, sozinha na estação, vi um trem parar na posição contrária e apenas uma mulher sair. Começou a subir a escada e de repente olhou para trás e voltou correndo em minha direção, pois só havia nós duas na estação. Chegou perto de mim e me abraçou dizendo que me viu e que não podia deixar de dizer que eu fui muito importante em sua vida. Que lembrava não só da matéria que ensinei, e sim do que eu havia transmitido como pessoa, mulher e cidadã. Cursava a faculdade de enfermagem e me confessou que eu tinha sido a melhor professora que ela tinha tido. Como chegou, foi embora naquela estação do metrô. Ali, percebi que todos estes anos de profissão valeram à pena.
Quero dizer, por toda a minha experiência, que realmente a construção da cidadania é a essência do papel do professor. Através do seu olhar, da sua palavra e das suas atitudes informa e forma cidadãos a aprender para a vida.”
Vera Neves Barreiro*
* Pedagoga e Orientadora Educacional, Vera Barreiro faz parte do quadro de professores do Município do Rio de Janeiro há 33 anos.